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Inovação e desenvolvimento: um ciclo virtuoso

Criada em 04/03/16 10:44.
 
 
Foi o voo ao redor da Torre Eiffel, realizado por Santos Dumont com seu dirigível em 19 de outubro de 1901, que inspirou a data escolhida para celebrar o Dia da Inovação. Instituída em 2010, a data chega à sua quinta edição este ano em busca de incentivar e divulgar a importância da inovação tecnológica, ajudando na promoção de debates e de palestras sobre este tema essencial para o desenvolvimento econômico sustentável, próspero e competitivo do país. 
 
O homenageado do Dia da Inovação, Santos Dumont, construiu cerca de 20 estruturas diferentes, de 1898 a 1909, entre balões, dirigíveis e protótipos de avião, modificando seus projetos para encontrar o resultado desejado. Isso mostra que, ao contrário do senso comum, a inovação não nasce apenasde impulsos de genialidade.Pesquisas e testes e o aprimoramento de diversas etapas, que vão da ideia à efetiva concepção, também fazem parte do processo da geração de inovação.
 
Mais do que criar novos produtos, o necessário é o enraizamento de uma cultura da inovação, que modifique o pensamento e os modelos de pesquisa e de produção científica das Universidades, das Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT) e das empresas.
 
A inovação é um processo colaborativo, em que todos podem ter uma parte do trabalho de aperfeiçoamento e de criação de produtos. A integração entre as pesquisas acadêmicas, as empresas e o Governo é um dos passos mais essenciais. “Estes três agentes não podem trabalhar separados. Há muita riqueza nas pesquisas acadêmicas que podem ser aplicadas ao mercado, as empresas precisam estar abertas e ativas para conexões com os ICTs, e o Governo tem que incentivar o processo, desobstruir o caminho, além de participar dos riscos da pesquisa de mais longo-prazo com uma política consistente de incentivos”, explica Leonardo Garnica, gerente de Sistemas de Inovação da Natura e coordenador do comitê de interação ICT-Empresa da Anpei. Até mesmo o consumidor é parte do processo: seu feedback é essencial para avaliar como o produto pode ser melhorado para o uso. Desse processo de interação, o resultado é a agregação de valor para a sociedade. “Sem inovação não há progresso. Sem enfrentarmos os nossos problemas, não criaremos melhores condições de vida”, explica o assessor educacional da Agência USP de Inovação, Sérgio Perussi Filho.
 
Ciclo Virtuoso da Inovação
 
Criar melhores condições de bem-estar social é o grande objetivo da civilização humana ao inovar. A produção de tecnologias que facilitem o trabalho, ajudem a enfrentar problemas e explorem de maneira eficaz as oportunidades que a natureza fornece, aumenta a qualidade de vida. Tecnologias que auxiliam o trabalho do homem não precisam ser complexas, apenas úteis: quando a enxada foi criada, por exemplo, o que os criadores procuravam era facilitar o trabalho de movimentação da terra, evitando o uso direto das mãos. “Mas, as inovações que nos impactam cada dia mais são aquelas que dependem de muito conhecimento científico, especialmente do mundo abstrato”, pontua Sérgio Perussi. Por isso, o pontapé inicial de qualquer busca por inovação é a percepção da existência de um problema ou da inadequação de soluções para resolvê-lo – ou mesmo a falta de um determinado conhecimento. A partir daí, cabe à ciência e tecnologia se unirem para criar uma solução inovadora. 
 
“O Ciclo Virtuoso da Inovação ocorre quando conseguimos unir em sinergia positiva o conhecimento científico, o desenvolvimento tecnológico e, por fim, a inovação. Esse ciclo se torna efetivamente virtuoso quando a inovação também passa a impactar a busca de mais conhecimento científico, que irá gerar mais tecnologia e inovações”, explica Perussi. As três lógicas colaborativas da criação – a da ciência, que visa a busca do conhecimento e o "conhecer bem" a natureza; a da tecnologia, com a lógica técnica do “fazer bem, funcionar bem”; e a inovação, com a lógica econômicado “vender bem” – se unem para permitir a criação de conhecimento útil e aplicado, difundindo a tecnologia no mercado. 
 
O ciclo também é virtuoso por promover a criação de riqueza. A atividade científica de busca do conhecimento e a criação de tecnologia demandam grande montante de recursos. “A recuperação dos recursos se dá quando a tecnologia é colocada no mercado, ou seja, vendida em forma de produtos tecnológicos. Isso gera receitas para as empresas e impostos para os governos, o que acaba por gerar recursos que são fontes para novos investimentos de educação e pesquisa científica”, diz Perussi. Por isso, colocar o produto no mercado conclui o ciclo da inovação. “Existe um ciclo de geração de ciência, que gera tecnologia, que gera inovação, que gera recursos que irão pagar a geração de mais ciência”, pontua o professor da Universidade de São Paulo (USP), José Antônio Lerosa de Siqueira. Dessa forma, o ciclo C-T-I (Ciência, Tecnologia e Inovação) se realimenta, criando as condições para a sua virtuosidade.
 
Da necessidade de integração de três polos, nasce uma das dificuldades do processo da inovação: promover a colaboração. Entretanto, paraLerosa, essa é também uma das maiores vantagens do processo. “Um projeto de inovação é como uma peça de ópera, cuja execução exige a participação de muitos artistas com talentos distintos. Daí surge uma vantagem. Na hora em que se percebe o poder da colaboração e da coordenação do esforço de muitos talentos, a complexidade dos projetos de inovação passa a não ter mais limites para o país que tiver paciência para investir nos resultados de médio e longo prazo”, explica o professor. Dedicação à coordenação de um apoio triplo melhora os resultados e diminui os custos do processo.
 
Inovação no Brasil 
 
Graças aos avanços tecnológicos e econômicos dos últimos anos, o Brasil se encontra preparado para inovar. Falta ao país, porém, sair da teoria - de um país que pode inovar - para a prática de um país que efetivamente inova. “Nos últimos 40 anos, o Brasil construiu uma base relevante na área de ciência e tecnologia. Hoje, temos boas estruturas físicas para pesquisa e produção, estamos conectados com países de primeiro mundo e somos o 19º país com mais publicações científicas do mundo. No Ranking Mundial da Inovação, porém, o país caiu da 56º para a 64ª posição. O Brasil não tem criado inovação de impacto e não está envolvido na Rede Mundial de Inovação. Falta darmos o salto de realmente fazermos inovação”, explica Garnica.
 
Para Leonardo, o país se encontra em fase de transição, de um sistema imaturo e pouco estruturado para um sistema organizado, porém ainda não fluido. Dentre os problemas do sistema brasileiro, está a fraca integração entre Universidades e ICTs, empresas e Governo. “No Brasil, há grande potencial em aumentar o espaço interativo das pesquisas acadêmicas, conectando esforços em cadeia de conhecimento e tecnologia junto às empresas.Em linha com ações como a Embrapii, a mais nova agência de fomento federal, é preciso criar condições favoráveis para a empresa ser bem recebida nas instituições de pesquisa e vice-versa”, pontua. Além disso, é preciso reforçar a aproximação entre as próprias empresas, de pequeno, médio e grande porte, para fortalecer cadeias de inovação globais.
 
Dentro das empresas, o enraizamento de uma cultura da inovação é necessário não apenas para o desenvolvimento do país, mas também para as suas próprias sobrevivências no novo cenário. “Quanto às empresas, posso dizer categoricamente que, aquelas que não absorverem adequadamente o sentido da inovação, estarão fora do mercado em pouco tempo. E não me refiro apenas às empresas privadas”, explica José Lerosa. O professor também aponta para as dificuldades burocráticas de fazer inovação no país: “Vejo de um lado muitas pessoas e empresas desejando investir na inovação e, ao mesmo tempo, vejo leis e posturas que dificultam isso”.
 
Os altos impostos praticados no país, a lentidão em processos de importação e pesadas obrigações trabalhistas encarecem a pesquisa e desenvolvimento tecnológico de ponta. Já existem casos em que realizar pesquisa em países de primeiro mundo, como os Estados Unidos, acaba sendo mais barato do que em centros construídos no Brasil, um país em desenvolvimento, o que acaba afastando investimentos globais para a área. A visão e a atuação a nível global, tanto para a busca de investimentos quanto para a competitividade, são mais um desafio do país. “O Brasil deve investir nas áreas da inovação em que pode ser competitivo internacionalmente. Os novos negócios têm que ser criados escalonados para o mundo. Nos acomodamos em atender o mercado nacional. Apenas a exposição ao mercado internacional fará com que a tecnologia desenvolvida no Brasil seja relevante e geradora de riqueza no longo prazo”, explica Leonardo Garnica.
 
Para ser mais competitivo e relevante, a agenda de inovação radical precisa estar presente com maior força nas empresas brasileiras, já que a absoluta maioria dos resultados de inovação observada é de natureza incremental. A inovação incremental representa pequenas melhorias contínuas em produtos. Geralmente, representam pequenos avanços nos benefícios percebidos pelo consumidor e não modificam de forma expressiva a forma como o produto é consumido ou o modelo de negócio, segundo o glossário da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei). Já a inovação radical é aquela que causa um impacto significativo em um mercado e na atividade econômica das empresas nesse mercado, ainda de acordo com o glossário. A inovação radical traz mudanças drásticas na forma que o produto é consumido, e, geralmente, traz um novo paradigma ao segmento de mercado, que modifica o modelo de negócios vigente.
 
Do ciclo da inovação para o dia a dia
 
O próprio processo de busca do conhecimento científico gera a necessidade de criação de tecnologias que facilitem sua obtenção. E muitas dessas tecnologias podem ser úteis para outros fins, como para a vida cotidiana. Um exemplo é a criação dos fornos de microondas, em que um interesse científico inicial, voltado para a área de radares, está hoje presente nos lares do mundo atual. “Com a descoberta do magnetron, equipamento que produz as microondas, o conhecimento científico se transformou em uma tecnologia que foi difundida no mercado por meios dos fornos. E, na sequência, essa inovação [o forno microondas] é hoje utilizada para auxiliar a busca de novos conhecimentos científicos. Esse é um grande exemplo da virtuosidade do ciclo da inovação”, comenta Sérgio Perussi.
 
Na Natura, Leonardo Garnica explica que é comum a prática de realizar inovação aberta e colaborativa, trabalhando ao lado de outras empresas, de Universidades e do Governo. “Com o processo de inovação colaborativa aumenta, queremos valorizar pessoas e competências que estão fora da Natura, abrindo espaço para construção conjunta de novas tecnologias. Quando cada agente dá o seu melhor, podemos lançar produtos melhores e, ainda, compartilhando riscos, além do aprendizado que a interação traz investimento”, explica o gerente de Sistemas de Inovação da empresa. Leonardo ressalta que este processo gera benefícios para todos os agentes envolvidos, além de impulsionar a economia do país.
 
A Natura se conecta às ICTs, às empresas e aos empreendedores de todo o país por meio do programa Natura Campus. Ao incentivar a colaboração e a construção de relacionamento, a empresa quer gerar inovação e valor compartilhado. Por meio dessa plataforma, a empresa promove chamadas, desafios e workshops.Lançado em 2003, o programa já permitiu a realização de 53 projetos com parceiros.
 
Como exemplo de uma parceria bem-sucedida da empresa, há o desenvolvimento de um produto da linha de tratamentos faciais da Natura, o Chronos Passiflora. Emassociaçãocom a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e com o apoio do Finep, foram pesquisadas espécies da biodiversidade. Um dos componentes químicos do maracujá, os flavonóides de passiflora, foi analisadopelos pesquisadores da UFSC e descoberto com ativos anti idade, o que contribui para o combate a rugas já existentes e para a desaceleração do aparecimento de novas; além de proporcionar firmeza, elasticidade e renovação celular da pele.  Como resultado, a Natura pôde lançar um produto inovador no mercado e a UFSC é remunerada pelo uso exclusivo da tecnologia.
 
Fonte: SIMI.